TRIGO IRRIGADO NO BRASIL CENTRAL: REALIDADE E PERSPECTIVAS

Historicamente, o Brasil é dependenteda importação de trigo para abastecer o consumo interno, atingindo até 80% dovolume consumido. Somente em 1989 é que o País chegou próximo de suaautossufuciência, ano em que as condições climáticas favoreceram as regiõesprodutoras do sul que ainda cultivavam grandes áreas decorrentes dos estímulosgovernamentais que subsidiavam a produção de trigo. A partir de 1990, todos ossubsídios foram retirados e ocorreu uma vertiginosa queda da área cultivada e,junto, a produção atingiu os menores valores.

 

Sem qualquer incentivo, a produção dotrigo nacional ficou muito abaixo do consumo interno, uma vez que nas regiõestradicionais as produtividades obtidas não eram suficientes para tornar atriticultura brasileira competitiva com outros países. As cotações no mercadointernacional estiveram sempre na faixa de 120 a 140 dólares a tonelada.Excepcionalmente, o trigo atingiu valores abaixo de 100 dólares a tonelada. Asbaixas cotações desestimularam por longo período o interesse dos agricultoresem utilizar a triticultura como atividade economicamente atrativa. Apersistência em cultivar trigo ocorreu somente entre aqueles agricultores quetradicionalmente obtinham melhores produtividades e que tiravam dessa culturaoutros benefícios no sistema de produção de sua propriedade.

 

Possivelmente, o fator mais agravantetenha sido a insegurança do agricultor quanto ao sucesso da cultura em funçãoda instabilidade climática nas regiões tradicionalmente produtoras do sul, queainda contribuem com mais de 80% da produção brasileira de trigo. Isto é facilmentepercebido, quando, em momentos de alta do trigo no mercado internacional, nãohá resposta expressiva na produção interna.

A luta pela autossuficiência em trigo,no Brasil, é datada desde a década de 20, quando se constatam várias ações degoverno e de trabalhos incessantes dos pesquisadores brasileiros na busca detecnologias que assegurem maior confiança e lucratividade ao agricultor. Nessecontexto, a triticultura no Brasil Central teve seu início em 1928. Nesse ano,o pesquisador Augusto Grieder, da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais,recebeu a incumbência de pesquisar o trigo no Estado, cujos testes foramrealizados próximos à cidade de Araxá. Na sequência, já em 1934, o Instituto dePesquisa de Minas Gerais (Iamg) dava início aos trabalhos de pesquisa com trigoque, posteriormente, a partir de 1937, o governo federal criou a estaçãoexperimental de Sertãozinho, em Patos de Minas, para fomentar a pesquisa e aprodução de trigo na região.

Nessa primeira fase da cultura do trigoem Minas Gerais,que durou até por volta de 1970, não houve expansão na região, pois o trigo nãopossuía os atrativos necessários para competir com culturas tradicionais daépoca. Em meados da década de 70, a pesquisa foi retomada em Minas Gerais, Goiás,Distrito Federal e Bahia, numa ação integrada da Epamig e Embrapa. Nessa novaetapa, a região passou por completa transformação, em conseqüência do programade governo para ocuçaão dos solos sob vegetação de cerrados (Polocentro). Nessenovo cenário, houve demanda, por parte dos agricultores, em alternativas deculturas, sobretudo no período após a colheita da soja.

De imediato, a cultura de trigo semirrigação foi adotada pelos agricultores em sucessão à soja precoce. A áreacultivada com trigo em Minas Gerais atingiu quase 25 mil hectares, em 1987, compredomínio do cultivo sem irrigação. Nesta fase os subsídios governamentaisforam bastante atrativos, garantindo lucratividade mesmo para lavouras comprodutividades abaixo do desejável, principalmente em condições sem irrigação,em que os riscos de deficiência hídrica são eminentes. A área irrigada teve suaexpansão marcada com a criação do Programa de Financiamento de Irrigação(Profir), em 1982, em que se estabelecia a exigência de cultivar trigo pelomenos uma vez na área irrigada, para ter acesso ao financiamento.

Com a retirada dos subsídios para otrigo nacional, o cultivo de sequeiro reduziu rapidamente e somente as áreasirrigadas deram sustentação para continuidade da produção tritícola em Minas Gerais e naregião dos Cerrados. A maior redução da área de sequeiro foi decorrente domaior risco de frustração de safra, menor margem de lucro e limitação de áreasaptas para seu cultivo.

A dependência do Brasil pelasimportações de trigo tem sido uma preocupação constante, sobretudo quando seconsidera a possibilidade de escassez desse alimento, para atender à demandamundial. A mudança de hábito alimentar do brasileiro coloca o trigo comoprincipal fonte de alimento, uma vez que o seu consumo per capta já é maior queo do arroz. O receio dos defensores da autossuficiência do trigo nacional, deescassez de alimento, antecedeu os mais otimistas, pois a produção mundial dealimentos já dá sinal de déficit em relação ao consumo. No caso do trigo, nosúltimos anos o crescimento da produção mundial foi inferior à taxa decrescimento do consumo e já se constata queda nos estoques mundiais, que noperíodo de 1999 a2008 reduziu em quase 50%. Como conseqüência, os preços no mercadointernacional aumentaram significativamente e o Brasil já tem dificuldades paraaquisição desse produto, agravado pela baixa produção na Argentina, atualmenteseu principal fornecedor.

Pela produção histórica do trigonacional, concentrada no Rio Grande do Sul e Paraná, o volume produzido estámuito aquém da demanda brasileira e não há sinais de que, mantida a atualsituação, a autossuficiência seja atingida, pelas constantes frustrações desafras na Região Sul, mesmo em situações favoráveis de mercado.

No Brasil Central, a evolução da áreacultivada e a produção aumentaram significativamente nos últimos anos e maisacentuadamente a partir da safra do ano de 2002. Esse aumento reflete ainclusão do estado de Goiás no sistema de produção de trigo, expansão das áreasirrigadas e maior atratividade econômica da cultura beneficiada por melhorescotações do produto e ganhos em produtividade e qualidade dos grãos colhidos.

Atualmente, a triticultura irrigada noBrasil Central passa pelo seu melhor momento, como reflexos da maturidade dosagricultores na condução da lavoura, grau de conhecimento acumulado pelapesquisa, que traduz em recomendações técnicas mais refinadas. No estágio atualda triticultura no Brasil Central, não há mais dúvidas de sua viabilidadetécnica e econômica. Por isso, seureconhecimento como alternativa complementar da produção brasileira resultou nainclusão da região nas políticas de governo para o setor, pois, atérecentemente os agricultores eram excluídos das políticas agrícolas,direcionadas para as regiões produtores do sul do País. Minas Gerais avançouainda mais, ao conseguir estabelecer estratégias políticas para a produção detrigo com o envolvimento de todos os elos da cadeia produtiva.

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